A Misericórdia abusada

 

Começamos lembrando um grande mártir, sábio teólogo e zeloso Pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, membro da resistência alemã anti nazista. Mesmo com outras palavras escrevia e falava da misericórdia abusada. Sem meios termos afirmava: “Graça a bom mercado significa justificação do pecado e não do pecador(...). A graça a bom mercado (barato) é a pregação da misericórdia, do perdão, sem o arrependimento (...), a absolvição sem a confissão pessoal”.

Nós sabemos bem de nossos mecanismos que buscam justificar tudo por atalhos. Conhecemos nossas espertezas e tramas de corrupção natural que nos tentam. Tantas vezes, fazemos de conta entender mal a palavra misericórdia, como quem se diz surdo para ouvir o que quer e o que lhe interessa. Na verdade a palavra “misericórdia”, frequentemente é mal entendida e abusada, quando a confundimos com uma fraca indulgência ou um frágil “laissez-faire”.

Não é difícil cairmos na tentação de falsificar a misericórdia. Aqui podemos cair no risco de mercantilizar a graça de Deus. Esta atitude, que pode seduzir ao nivelamento por baixo, nega a preciosidade desta mesma graça que foi conquistada e ganha com o preço do sangue de Cristo na cruz. Também trai as mais profundas aspirações humanas, de vida em plenitude que todos carregamos nas profundezas de nosso ser.

Jesus Cristo tem uma advertência muito séria a respeito deste tipo de barateamento da graça misericordiosa. Todo o cuidado é pouco para não nos deixar seduzir, entrando pela porta larga, onde o egoísmo vai nos empurrando para a escravidão. Entrar pela porta estreita não significa negação da misericórdia, mas responsabilidade em administrar o preço do amor de Deus que liberta e salva.

Sabemos que a verdadeira e necessária medicina, tantas vezes, precisa receitar remédios amargos para curar e mesmo processar uma cirurgia para nos libertar de um corpo estranho que põe em risco nossa vida. Cristo, o grande médico da misericórdia sempre exigiu da pessoa uma participação responsável para sua cura e seu perdão. A Igreja, por ser também humana, necessita a disciplina para favorecer os efeitos da misericórdia.

Essa compreensão terapêutica da lei e da disciplina da Igreja nos ajuda à verdadeira interpretação e explicação do Direito Canônico. Aqui é bom deixar claro que o Direito Canônico não está contra o Evangelho, mas o Evangelho está contra  uma compreensão legalista e fria do Direito Canônico.

O Direito Canônico deve ser interpretado e aplicado à luz da misericórdia, porque é a misericórdia que abre os nossos olhos às situações concretas dos outros. O outro não é um caso a ser catalogado numa regra geral. Diante de Deus não somos um “plural”. Cada pessoa e cada situação é singular.

O que realmente importa, é não desvirtuar a misericórdia de Deus, nem usarmos mal a nossa misericórdia com os outros. Deus sabe e nós também precisamos saber que ninguém é feliz no erro e nem no caminho de desumanização.

 

 

 

ORAÇÃO: Senhor, tudo o que é precioso tem um preço elevado. A nossa vida e a vida do mundo custaram o preço do sangue de vosso Filho na cruz. Porque sois rico em misericórdia, vos tornastes pobre para nos enriquecer. A prontidão em nos oferecer vossa misericórdia não pode ser abusada por nós. Vossa graça nos chama à responsabilidade fiel, para um caminho de conversão. Dai-nos sabedoria, para escolher o caminho estreito que nos conduz à vida e não nos deixeis cair na tentação de escolher a porta larga e o caminho fácil do comodismo e da indiferença. Senhor, fazei-nos valorizar a misericórdia que nos ofereceis e fazei-nos misericordiosos, como vós,  para nossos irmãos. Amém!