Voltou-se a falar de alegria

Ao percebermos algo importante, em retirada na vida, volta-se a falar e, com insistência, se mostra o desejo de ver a sua volta, provando que é necessário e possível. Mas não basta provar que seja possível. Precisamos encontrar o caminho e o modo como isto possa acontecer. Um destes componentes atuais de nosso viver e conviver em retirada, de que muitos necessitamos, é a alegria.

O primeiro sinal que denuncia a carência de alegria está estampado no rosto das multidões de homens e mulheres, jovens e crianças que correm dia e noite pelas cidades, carregados de preocupações, limites e angústias. Dizem que nosso povo brasileiro gosta muito de se divertir e até se exceder nos limites, mas não prova ser um povo alegre. Certamente não é só o povo brasileiro. O Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica “Alegria do Evangelho”, afirma:

“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros. Já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem”. (EG 2).

A psicologia nos confirma que a intensidade da alegria é uma expressão que pode variar de pessoa a pessoa, segundo a diversidade de temperamentos. Porém, a alegria é um direito e um dever de todos. Uma pessoa que cultiva a alegria tem trânsito livre em todos os setores da vida e da atividade humana. Além de ser um benefício para a pessoa, cultivar a alegria é também um benefício social. Tudo flui com mais leveza e espontaneidade. Onde há alegria, diz um antigo pensador, ate as paredes aprendem a sorrir.

Há motivos passageiros que suscitam alegria: é uma boa notícia que recebemos; é um êxito obtido; é um elogio sincero que nos é dado; é um encontro festivo que promovemos etc... Há incontáveis razões para a alegria. Mas há uma alegria que  nem o mundo pode nos tirar. É a alegria garantida por Cristo. Ele não só nos garante esta alegria, mas se torna nosso mestre.

Parece estranho pensar em Jesus Cristo – o perseguido e crucificado, o austero profeta da interioridade, da renúncia e da cruz – como mestre da alegria. Sua vida e sua mensagem é a “jubilosa novidade” do reino. Geralmente a tristeza nasce em nós, porque nos sentimos sozinhos ou porque provamos a esterilidade do nosso trabalho e o vazio de nossa vida. Mas, com sua vinda a nós e para nós, Jesus preenche o vazio; existe a cruz pascal para fecundar e dar importância ao trabalho.

Desde o começo, Cristo nos convida a sermos alegres. O sermão da montanha abre-se à solene proclamação da alegria dos pobres, dos pacientes, dos aflitos, dos que tem fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos que promovem a paz, dos perseguidos por causa da justiça.